Sábado


O que não nos matou  
apenas nos marcou.  
Uma nave leva o filósofo  
— ele ainda está tentando.  
Na passagem, o demônio  
faz hora extra. 

No bar, o blues é um homem  
curvado sobre o rum.  
O mar não ensina,  
endurece o rosto.  
A mulher inventa uma palavra  
e o anel a captura.  
O vinho é um clarão  
sobre o abismo. 

O Coletor de Sombras  
entra como quem já esteve ali.  
Os filhos imortais o reconhecem.  
Os outros, não.  
Cada dia é uma réplica  
mal feita do último. 

À mesa:  
o alquimista, o olheiro,  
o coletor, o rei da boca,  
o gerente esquecido —  
todos com a mesma fome.  
O sem noção empurra a moto enferrujada  
como quem empurra a própria sorte.  
Nas praias, as aberrações  
andam com o vento. 

Alguém confunde os pólos  
e chama a isso destino.  
A vida oscila  
entre a luz e o inferno,  
entre o medo e o prazer  
de estar aqui.  
Os sérios aplaudem o palhaço.  
O bêbado declama na porta  
um poema que ninguém pediu. 

De madrugada,  
o Coletor nota a queimadura.  
As histórias pesam no saco.  
Ele sai para a estrada  
fora de época.  
O que não nos matou  
ficou debaixo da pele. 

Saímos da sombra,  
mas a sombra saiu conosco.  
O cascos sobre as dunas  
são o que resta do fulgor.  
As ilusões sobre as nuvens  
ainda não pararam.  

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