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Disfarçando

A tarde foi mel nos dedos,   Mas a mão ainda é doce, e gruda. O frio chega devagar —   nos traz outra chama.   A bruxa lança feitiços em série,   nada cai que não seja dela.   A escuridão espera, mas sob o sereno   o fogo ainda canta... e a ingenuidade nos reclama.    

Aceitação

Beleza... espelho rachado... o instante... eu gosto.  A memória falhou... falhamos.  Minha mente, diferente...  acelera, falha, trava... dá ruim... nunca é bom. Esqueço. Não há arte em mim. Só lembranças.  Meus poemas registros loucos.  Confusão. Olhos diversos. Caos.  Não me importa. Não amedronta.  O tempo. Esquecer é meu dom.  Para os que merecem.  

O Céu Não Nos Olha

O vento sussurra, mas não para mim. O reflexo é tão triste e tão belo que virar-me seria morrer. Choro.   O farfalhar do vestido, a bota que cai. O ardor infantil sumiu. Em que braços cais agora, amor?   Não nos meus. E essa certeza tem um gosto que não é só meu.   As estrelas apagaram-se por descaso. Assim evito esse miserável impulso.  

Amanhecer

Se a bruxa é apenas a bruxa e o homem um fio seco prestes a romper... porque ele sai, devora as ilusões buscando o prazer de se perder? deixa as promessas — pensamentos acesos no nevoeiro — refletirem no chão enquanto o desejo nesse vício doce é uma lenta e bonita agonia.  Sob a névoa o tempo é veneno... torna-se absoluto um riso que voa e não sobra ninguém... as lesmas de pedra arrastam seu rastro viscoso — esforço absurdo e belo na trilha úmida onde o avanço não é um início e o final não é uma chegada.  

Pacto

A xícara fria na mesa junto à janela, que esqueci outra vez. Esqueceste-me também, na janela junto à mesa, foste frio como a tempestade de um início de tarde. Mas quando a garoa cai e o vidro embacia, tua mão encosta nos meus lábios. A paisagem se desfaz em lágrimas, e tu olhas com saudade o que não volta, sussurras Verônica e beijas Ayalah como quem se despede da promessa. E eu sei que cair contigo é um pequeno absurdo, um êxtase cálido que não pede sentido. Amanhã direi: foi nada. E esse nada continuará.  

Traçado

O labirinto da alma, por ti delineado, Viver e morrer, em teu sussurro controlado. A luz, uma ilusão, que tua carne desfaz, Em ciclo eterno, que teu desejo me refaz.  

A Teia de Gelo

Chuva fria. Escuridão. Verônica à espreita. O tempo cede.   Ela é o gelo. Pele, sombra. Cabelos de noite. Sorriso, abismo. Amor: sua trama.   Tece destinos. Manipula os fios. Almas se curvam. Vidas se perdem.   Pague a bruxa. Ouro inútil. O fim te chama. A vida, nada.   Seu olhar, desejo. A chuva, sua batida. Controle: sua teia. O mundo em sua mão. Da concha... planeja.  

Venenosa

Cuide-se.   Sombreia os olhos.   Não tema a própria espinha.   Há espelhos que matam —     seu reflexo é mais afiado.  Despida, arde.   A língua lambe a chama.   Seja o veneno que escolheu.   E por trás do sorriso,   o punhal.  

Laço Esmero

O tempo está lindo. Só do frio é que não disfarço. Sorrio para o lago: que espelho tão bem-educado. O mar devolve-me uma alegria boba e salgada. Depois o desejo: resta uma aurora gentil do amor. Quase um capricho. A poesia é a minha fuga preguiçosa e rendosa. Tento fugir do lirismo, mas ele me despenteia e eu gosto. Tudo o que interessa é proibido e doce. Vou dormir um pouco, ou rir de mim ao longe. Tu tens medo? Somos apenas uma louca com um laço de fita dourada.    

Nadir

Enquanto o céu doura a queda, a alma sorri e a fome arde. Sob a terra que engole o grito, a luz projeta o belo e o mal finge vencer.  

Risco

No ranger da madeira. O ipê guarda um silêncio de alegria pré-inverno. A bruxa sussurra promessas de infinito ao assumir o êxtase. O anzol na seda: prazer na alta lenta, pavor que sempre volta de um sonho que aperta. Queremos dançar — até o teto desabar.  

Esconderijo

Um fim de semana no lago... onde tudo começou. Calor e amor. Refúgio na cabana. Amadas, forjamos a original: Perseguimos. Reinamos. Amamos nas sombras; Sem sustos na luz. As noites sempre surpreendem. Eu me mantenho magra... ele sorri. O melhor sempre chega com a madrugada.  

O Peso da Alvorada

  Nunca se sabe. O sol nasce, a bruxa acordada. Brinca com a decoração? Ou busca o ruído de um cometa.   Pó. Estática. As conversas loucas dos demônios — aqueles que dominam os sonhos.   É um êxtase que despenca. A alucinação ainda é doce, e eu, de costas para o sol.   Que desperdício de luz. Tão cheia de vida... Que tédio.   Vou observar em silêncio.     

Mau

Não estamos em nenhum lugar... quando as vozes na cabeça falam sobre os degraus do mal, momentos lindos do mal, bruxas do mal, vestido do mal, pose do mal, forças do mal, a realidade da Verônica, ser má, contrariar a Verônica é mau em geral, o mal e, claro, a bondade da Ayalah. E o mal.  

Sombra de Ouro

Nenhuma mentira de homem, nenhuma verdade, apenas o vazio que me faz sentir viva — esperança, amor, felicidade? As nuvens passam indiferentes e a loucura envolve um sonho antigo onde meu silêncio esconde a saudade de nossa caminhada matinal passada, que é igual a um passeio noturno; com a única diferença de que à noite há menos humanos na praia... para quem ama a solidão em gaiolas de ouro.  

Aliança

Ouviste a voz — e estremeceste com lábios secos. A casa retém um silêncio surdo pelo hálito azedo da chuva antes do estrondo.   A bruxa te serve veneno em taça fria, sussurra que o fundo do abismo tem lençóis de cetim. Sabendo que a corda é fraca, tomaste a maçã pelo caminho mais louco e chamaste isso de destino.   Já não tremes. Sorris. No tempo do tédio, a ruína é uma onda sem pressa. Enquanto o lúdico te engole com modos de amante, descobres que a solidão é a única forma elegante de ficar eternamente comigo — percebes que os pássaros mortos nunca caíram do céu?    

Vil

O vento do tempo   leva todas nós.   E eu gosto.   Ele me ama   por eu não poder  ser pior.   E nunca tento ser boa.   Está tudo bem amor.   Eu só estou a sangrar. Sorria.  

Atração

Meu coração é um astro tardio, um pulsar de fim de escuridão. Minha gravidade é um canto raso, que atrai somente a própria solidão.  Mas há em ti uma força mais profunda, um desejo que curva a luz. E eu — matéria que sonha com o centro —   me desfaço no que me reduz.  Não é um colapso: é uma entrega. A minha carne, um horizonte. O teu toque — singularidade —  o ponto onde o tempo me afronta.  E no momento em que me quebro, nesse súbito e doce espasmo cósmico, sou finalmente consumida pelo teu silêncio abissal e místico.  E eis que decifro o código antigo: o teu desejo, um códice negro e quente. Na asfixia, achei o assombro — a assinatura do amor no meu dente.  E nós — temiamos o fim — agora vemos: o êxtase é se deixar consumir. Eis que compreendo: o segredo do abismo  era o amor que se inventa ao ser destruído.  E no teu centro, onde eu me perco, encontro, enfim, meu próprio grito —  transformado em algo primordial,  no desmedi...

Sábado

O que não nos matou   apenas nos marcou.   Uma nave leva o filósofo   — ele ainda está tentando.   Na passagem, o demônio   faz hora extra.  No bar, o blues é um homem   curvado sobre o rum.   O mar não ensina,   endurece o rosto.   A mulher inventa uma palavra   e o anel a captura.   O vinho é um clarão   sobre o abismo.  O Coletor de Sombras   entra como quem já esteve ali.   Os filhos imortais o reconhecem.   Os outros, não.   Cada dia é uma réplica   mal feita do último.  À mesa:   o alquimista, o olheiro,   o coletor, o rei da boca,   o gerente esquecido —   todos com a mesma fome.   O sem noção empurra a moto enferrujada   como quem empurra a própria sorte.   Nas praias, as aberrações   andam com o vento.  Alguém co...

A Chuva que nos Fica

Gosto da chuva. Névoa. Vento. A alma quieta. Silêncio — quase feliz. Frio do outono. Pétalas brancas no jardim. O fluxo dos dias bons, o que passou, o que ainda finge voltar. Gosto de amar. Amar o que são os outros. O bom, o momento que não se repete. Gosto de ser quem sou. Sob este céu, teus olhos verdes. Tanto que não cabe em mim. Tudo isso — contigo — sem saber como fica.  

Sortilégio

Apenas a poeta consegue aliar a sua escrita às noites de lua, ao amor... no amor, diverte-se e, ao mesmo tempo, fantasia em poesias... e ela, a bruxa, é uma coisa diferente...  

Perdição

Amor é queda De um telhado Olho as flores negras No jardim em névoa Nunca se cansa Este olhar Tu és como elas Flores da sombra E eu caio Sempre No teu abismo Pousar em ti Sentir o arrepio Desejo que não passa  

Fata Morgana

Somos a razão da ilusão dos homens... o verdadeiro torna-se falso, e não há nenhuma outra verdade... Sempre bela, sutil, provocante; entre outras sombras, tudo é sombra. Como todas, uma miragem que desaparece sem deixar rastro.  

Danação

Sonhos vazios  meus pés dançam — abismo macio.  A verdade é uma lâmina minha alma afunda o inferno sorri.  

Lugar Nenhum

Não me arrependo. Não. Nem da luz que doei, nem do veneno que bebi. Tudo se desfaz em épocas. O desespero alheio é um copo cheio que deixo transbordar. Às vezes, a vida é só um vago lembrete do que não somos. O que começa e acaba é do tempo. O resto é este silêncio, um êxtase raso, um sabor no sangue — é romance com o abismo. Nada importa. Nada. Que doce, esta queda.  

Frenesi

O amor é mudo. Só retorna o que gritamos.  Inventamos o resto.  Amor é a casa em chamas onde dormimos.  É a sombra no vão da porta.  Chamas a fera e ela vem com dentes doces.  Tua boca na minha meu fio de prata partido.  Vigília no teu corpo de carne e osso.  O delírio: beijo teus lábios com a boca de todas.  Até que o fogo nos revela o único êxtase que importa:  és meu vício e minha absolvição neste inferno de brasas.  

Meu Mundo

Luz é o escuro que te ofereço, neste entardecer perfumado. O tempo aqui não vigia, ele apenas passa.  Estrelas secas, sem piscar. O vácuo é um vidro polido, deliberadamente gracioso, como o punhal no veludo.  A beleza é um erro de cálculo. E eu vim cobrar o meu sol.