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Vil

O vento do tempo   leva todas nós.   E eu gosto.   Ele me ama   por eu não poder  ser pior.   E nunca tento ser boa.   Está tudo bem amor.   Eu só estou a sangrar. Sorria.  

Atração

Meu coração é um astro tardio, um pulsar de fim de escuridão. Minha gravidade é um canto raso, que atrai somente a própria solidão.  Mas há em ti uma força mais profunda, um desejo que curva a luz. E eu — matéria que sonha com o centro —   me desfaço no que me reduz.  Não é um colapso: é uma entrega. A minha carne, um horizonte. O teu toque — singularidade —  o ponto onde o tempo me afronta.  E no momento em que me quebro, nesse súbito e doce espasmo cósmico, sou finalmente consumida pelo teu silêncio abissal e místico.  E eis que decifro o código antigo: o teu desejo, um códice negro e quente. Na asfixia, achei o assombro — a assinatura do amor no meu dente.  E nós — temiamos o fim — agora vemos: o êxtase é se deixar consumir. Eis que compreendo: o segredo do abismo  era o amor que se inventa ao ser destruído.  E no teu centro, onde eu me perco, encontro, enfim, meu próprio grito —  transformado em algo primordial,  no desmedi...

Sábado

O que não nos matou   apenas nos marcou.   Uma nave leva o filósofo   — ele ainda está tentando.   Na passagem, o demônio   faz hora extra.  No bar, o blues é um homem   curvado sobre o rum.   O mar não ensina,   endurece o rosto.   A mulher inventa uma palavra   e o anel a captura.   O vinho é um clarão   sobre o abismo.  O Coletor de Sombras   entra como quem já esteve ali.   Os filhos imortais o reconhecem.   Os outros, não.   Cada dia é uma réplica   mal feita do último.  À mesa:   o alquimista, o olheiro,   o coletor, o rei da boca,   o gerente esquecido —   todos com a mesma fome.   O sem noção empurra a moto enferrujada   como quem empurra a própria sorte.   Nas praias, as aberrações   andam com o vento.  Alguém co...

A Chuva que nos Fica

Gosto da chuva. Névoa. Vento. A alma quieta. Silêncio — quase feliz. Frio do outono. Pétalas brancas no jardim. O fluxo dos dias bons, o que passou, o que ainda finge voltar. Gosto de amar. Amar o que são os outros. O bom, o momento que não se repete. Gosto de ser quem sou. Sob este céu, teus olhos verdes. Tanto que não cabe em mim. Tudo isso — contigo — sem saber como fica.  

Sortilégio

Apenas a poeta consegue aliar a sua escrita às noites de lua, ao amor... no amor, diverte-se e, ao mesmo tempo, fantasia em poesias... e ela, a bruxa, é uma coisa diferente...  

Perdição

Amor é queda De um telhado Olho as flores negras No jardim em névoa Nunca se cansa Este olhar Tu és como elas Flores da sombra E eu caio Sempre No teu abismo Pousar em ti Sentir o arrepio Desejo que não passa  

Fata Morgana

Somos a razão da ilusão dos homens... o verdadeiro torna-se falso, e não há nenhuma outra verdade... Sempre bela, sutil, provocante; entre outras sombras, tudo é sombra. Como todas, uma miragem que desaparece sem deixar rastro.  

Danação

Sonhos vazios  meus pés dançam — abismo macio.  A verdade é uma lâmina minha alma afunda o inferno sorri.  

Lugar Nenhum

Não me arrependo. Não. Nem da luz que doei, nem do veneno que bebi. Tudo se desfaz em épocas. O desespero alheio é um copo cheio que deixo transbordar. Às vezes, a vida é só um vago lembrete do que não somos. O que começa e acaba é do tempo. O resto é este silêncio, um êxtase raso, um sabor no sangue — é romance com o abismo. Nada importa. Nada. Que doce, esta queda.  

Frenesi

O amor é mudo. Só retorna o que gritamos.  Inventamos o resto.  Amor é a casa em chamas onde dormimos.  É a sombra no vão da porta.  Chamas a fera e ela vem com dentes doces.  Tua boca na minha meu fio de prata partido.  Vigília no teu corpo de carne e osso.  O delírio: beijo teus lábios com a boca de todas.  Até que o fogo nos revela o único êxtase que importa:  és meu vício e minha absolvição neste inferno de brasas.