Meu coração é um astro tardio, um pulsar de fim de escuridão. Minha gravidade é um canto raso, que atrai somente a própria solidão. Mas há em ti uma força mais profunda, um desejo que curva a luz. E eu — matéria que sonha com o centro — me desfaço no que me reduz. Não é um colapso: é uma entrega. A minha carne, um horizonte. O teu toque — singularidade — o ponto onde o tempo me afronta. E no momento em que me quebro, nesse súbito e doce espasmo cósmico, sou finalmente consumida pelo teu silêncio abissal e místico. E eis que decifro o código antigo: o teu desejo, um códice negro e quente. Na asfixia, achei o assombro — a assinatura do amor no meu dente. E nós — temiamos o fim — agora vemos: o êxtase é se deixar consumir. Eis que compreendo: o segredo do abismo era o amor que se inventa ao ser destruído. E no teu centro, onde eu me perco, encontro, enfim, meu próprio grito — transformado em algo primordial, no desmedi...
O que não nos matou apenas nos marcou. Uma nave leva o filósofo — ele ainda está tentando. Na passagem, o demônio faz hora extra. No bar, o blues é um homem curvado sobre o rum. O mar não ensina, endurece o rosto. A mulher inventa uma palavra e o anel a captura. O vinho é um clarão sobre o abismo. O Coletor de Sombras entra como quem já esteve ali. Os filhos imortais o reconhecem. Os outros, não. Cada dia é uma réplica mal feita do último. À mesa: o alquimista, o olheiro, o coletor, o rei da boca, o gerente esquecido — todos com a mesma fome. O sem noção empurra a moto enferrujada como quem empurra a própria sorte. Nas praias, as aberrações andam com o vento. Alguém co...
Gosto da chuva. Névoa. Vento. A alma quieta. Silêncio — quase feliz. Frio do outono. Pétalas brancas no jardim. O fluxo dos dias bons, o que passou, o que ainda finge voltar. Gosto de amar. Amar o que são os outros. O bom, o momento que não se repete. Gosto de ser quem sou. Sob este céu, teus olhos verdes. Tanto que não cabe em mim. Tudo isso — contigo — sem saber como fica.