sem me importar com o vasto repertório que nos compõe, sou feita também de silêncios herdados e gestos que não escolhemos. numa certeza que dura menos que um espasmo, ancoramos sem perguntar ao porto se há regresso. não nos deixamos levar, mas o leme, às vezes, é apenas a memória de um naufrágio antigo. ao alvorecer, seguimos não por esperança, mas por não saber morrer parada. até que a aurora se desfaça em crepúsculo, e a boca ainda procure não o sal, mas a textura exata do instante de beleza que nasce do assombro e da queda. saber que o fim nos espreita e, ainda assim, abrir a janela para o abismo como quem oferece o peito a um amante invisível.