O que quero ainda não tem nome. Tu partiste antes do tempo nascer e levaste contigo o último sopro quente da manhã. Sem asas, sem guelras, sem o caldeirão onde eu fervia orelhas e promessas — cortaste tudo com a elegância de quem fecha uma porta e sorri do outro lado. Agora o instante morde os calcanhares e ri baixinho: nada havia além daquela boca, daquela tarde, do gosto metálico de um quase para sempre. É estranho e doce descobrir que o fundo também balança, que a queda tem seu próprio ritmo, que o não ser pulsa. Ficou o perfume do que não temos pairando sobre os dentes como uma pergunta que ninguém fez. E eu, sem saber nadar nem voar, aprendo a cair com estilo — enquanto a noite observa e a morte, dará o ar coquete que desvia o olhar.
sem me importar com o vasto repertório que nos compõe, sou feita também de silêncios herdados e gestos que não escolhemos. numa certeza que dura menos que um espasmo, ancoramos sem perguntar ao porto se há regresso. não nos deixamos levar, mas o leme, às vezes, é apenas a memória de um naufrágio antigo. ao alvorecer, seguimos não por esperança, mas por não saber morrer parada. até que a aurora se desfaça em crepúsculo, e a boca ainda procure não o sal, mas a textura exata do instante de beleza que nasce do assombro e da queda. saber que o fim nos espreita e, ainda assim, abrir a janela para o abismo como quem oferece o peito a um amante invisível.