Entre os dedos, a taça treme — tremo de frio. Escolho o veneno que queima na língua antes de descer. De manhã vesti preto, a noite me despe só com reflexos. Os deuses se escondem na pausa entre o sim e o nunca mais. Imperfeita: um galho rachado no espelho. Cada estilhaço, êxtase... cada corte, seco como desculpas. O inverno passa manso, amante de ferro. Antes do prato vazio, deito enquanto caio. Ergo a ruína como um brinde leve. O absurdo pede a cereja na hora do bolo. Tudo se iguala: o joelho ralado da infância, o último beijo no escuro. Mas, agora, a chama ilumina a ferida e a ferida cresce. Divertido é morrer um pouco a cada instante, olhando para o abismo, decidindo quando pular.
No escuro junto à janela, o mar respira atrás da cortina — um sonho molhado domina. ninguém ergue os meus pés, lúcida. Escrevo por um motivo: ofereço ao tempo as minhas fantasias como quem cospe a asfixia devagar. A noite do quarto e a de fora têm o mesmo vício. Cair é um êxtase sem rede, uma arte menor que aprimoro na sombra — com a maldade de quem sabe que nenhum ombro espera, e ainda assim morde o instante lentamente...