cinzas voam
arder é prazer breve.
escolhemos o fogo
por puro tédio invertido.
a pele se desfaz em gesto,
ajoelhar é só mais uma queda
ensaiada diante do espelho.
céu algum devolve o olhar —
mas o riso, esse, atravessa as nuvens
como adaga cega.
mãos que apertam a cintura
separam o osso da promessa.
à noite tudo é adorno,
até um pesadelo.
esquecemos para poder dançar.
a dança ignora a última vez.
um ciclo:
o anjo ateou o fogo e partiu,
nem ódio, nem amor —
apenas luz que não aquece,
apenas carne que entra lenta.
cansada das bestas
que fingem ser deuses,
exausta do próprio cansaço,
ela tomba —
estilhaço sem grito,
vitória sem vencedor.
o fogo queima o que resta.
ninguém perdoa,
mas a ironia continua besta.