instante sem regresso


sem me importar com o vasto repertório que nos compõe,  
sou feita também de silêncios herdados  
e gestos que não escolhemos.  

numa certeza que dura menos que um espasmo,  
ancoramos sem perguntar ao porto  
se há regresso.  

não nos deixamos levar,  
mas o leme, às vezes,  
é apenas a memória de um naufrágio antigo.  

ao alvorecer, seguimos  
não por esperança,  
mas por não saber morrer parada.  

até que a aurora se desfaça em crepúsculo,  
e a boca ainda procure  
não o sal,  
mas a textura exata do instante de beleza 
que nasce do assombro e da queda.

saber que o fim nos espreita  
e, ainda assim,  
abrir a janela para o abismo  
como quem oferece o peito  
a um amante invisível.  
 

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