Não é Ciúme
A vida com a outra
— dizes — é um tombo da prancha.
O mar não guarda culpa,
A memória
já era espuma
antes de ter lábios.
Almas irmãs, pediste —
não rivais.
Mas a deusa destronada
morde ainda o cetro partido
enquanto sorri.
A bruxa malévola
sou eu
que não uso mais que o próprio rosto
no espelho que em ti enfeitiçou.
Sou ela.
Tanto faz.
O feitiço era só o teu medo
de outro tempo.
O êxtase?
Paga-se em prestações
de madrugada,
quando o corpo novo
já cheira a conhecido.
Jogas em casa.
Trocas Carrara por gesso.
Mordes a semelhança
e cospes cinza no prato.
Não reclames:
cada cama é um exílio
que se assina com língua.
A ferida eterna da consciência
não fecha com outra pele.
Só muda o veneno.
Dizes: estranha.
Amor,
toda a estranha foi um dia
a tua casa.
Como se levanta?
Como se encolhe?
A mesma pergunta
no escuro,
com outra ao lado.
Sacia-te então
a novidade ensaiada?
Não.
O abismo não tem profundidade
porque o abismo és tu
de olhos abertos.
A bruxa cínica
agora serve-te o café
sem sexto sentido.
Os sentidos dela
bastam-lhe.
Os teus, não.
Dizes que não és feliz.
Eu também não.
Mas já não pergunto.
A pedra é a mesma,
só mudou a forma.
A vida com a outra?
Mais difícil?
Igual?
Sorria,
o êxtase é sempre queda.
A queda, às vezes,
parece voo.
Mas não é.