Quase nada


Busco um reflexo transparente.
Não nasce no jardim de casa.

Os pés sufocam nos sapatos.
Ânsia antiga. Mania louca. Inútil.

As mãos tentam agarrar o vento.
Ele passa, toca, espera.
É só ar.

No mercado, pergunto o que trazer.
Talvez um gole de sossego,
um soco seco no estômago,
os olhares me pesam como um travesseiro velho
a molhar o pijama.

Não. Sim.
Compra um pirulito que cospe, mulher.

Preciso da chuva fria
para as plantas não sentirem frio.
O reflexo transparente está lá, olhando,
conversando coisas bobas
com os outros reflexos que não me olham.

E os pés continuam calçados.
As mãos, vazias.
O dia, indiferente.
E a chuva cai sobre a gente.  

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