Sangue e Ossos


Na água enferrujada
nem sol toca.

Ossos dispersos
recusam-se ao corpo.

Dizem: não há nada aqui.
Só átomos anteriores ao tempo.

Lembras-te?
Eras caldo.
Eras peixe de boca plana.
Os deuses deram instruções.

A ferrugem está em tudo —
na sopa de Verônica,
no oceano,
em ti.

Confiei-me ao inverno.
Foi insensato.
Agora o esqueleto desmorona
sem explicação.

Serei eu?
Ou um rudimento sem sentido?

Existi. Depois não.
Desapareci — mas não dormi.
Acreditei que sonhava.
Era outra coisa.

Queres encontrar algo?
Traz um fragmento.
Um exemplo.
Aqui só há dores de fantasma
e pensamentos loucos.

A água enferrujada vai-se.
Como se eu escolhesse.
Caldo novo escorre nos ossos.

Lembra:
os peixes primeiros
receberam a palavra.
E os deuses calaram-se
dentro da pedra.  

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